- Chamons
- 09 junho, 2026
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Figurinhas, memória afetiva e vendas: por que a nostalgia conquistou o marketing moderno
Um aroma de um perfume específico que você usava na adolescência. Uma música que te acompanhou durante anos nas viagens de carro. Um filme ao qual você assistiu no início da vida adulta e que hoje influenciou seus filhos a também acompanharem. Tudo o que faz você voltar no tempo e relembrar bons momentos.
A nostalgia traz sensações poderosas, e o marketing tem cada vez mais utilizado essa força para conquistar novos clientes ou fazer com que eles se lembrem do que um dia foi essencial em suas vidas. E é aí que a nostalgia deixa de ser apenas uma lembrança e se transforma em tendência de consumo.
Como mãe, percebo isso com frequência. Muitas vezes, me vejo apresentando aos meus filhos coisas que fizeram parte da minha infância. Filmes, brincadeiras, músicas e até hábitos que marcaram uma época. E o mais interessante é perceber que eles se conectam genuinamente com essas experiências, mesmo sem terem vivido aquele momento.
No mercado, acontece exatamente a mesma coisa. Uma pesquisa da PiniOn mostrou que 56,8% dos brasileiros já compraram produtos ou serviços motivados por lembranças do passado. Além disso, oito em cada dez consumidores afirmam já ter adquirido algo que desejavam na infância ou adolescência. Não por necessidade, mas pela emoção que aquele produto desperta.
Quando a memória vira consumo
Em momentos de instabilidade e excesso de informação, as pessoas tendem a buscar referências que transmitam conforto, familiaridade e autenticidade. Não é por acaso que vemos tantas marcas resgatando embalagens clássicas, personagens icônicos, coleções retrô e produtos que marcaram gerações.
A nostalgia funciona porque combina três elementos extremamente relevantes para o consumidor atual: conexão emocional, senso de pertencimento e autenticidade.
Em um ambiente digital cada vez mais competitivo, esses atributos se tornaram diferenciais valiosos. Afinal, é muito mais fácil criar relacionamento quando existe uma história compartilhada entre marca e consumidor.
A Copa e o retorno de um ritual que atravessa gerações
Se existe um exemplo perfeito desse movimento, ele é o álbum de figurinhas da Copa do Mundo.
Em 2026, a coleção chegou à sua maior edição da história, com 980 figurinhas e milhões de cromos produzidos diariamente no Brasil, segundo dados divulgados na imprensa. Mas o que mais chama atenção não são os números. É o comportamento das pessoas.
Basta observar as redes sociais para perceber o fenômeno. Vídeos sobre trocas de figurinhas, coleções completas, figurinhas raras e memórias das Copas passadas acumulam milhares de visualizações.
E não é difícil entender o motivo. Quando vejo crianças abrindo pacotinhos pela primeira vez, automaticamente me lembro da expectativa de encontrar aquela figurinha difícil, das trocas no recreio, das ruas enfeitadas e dos jogos assistidos em família. Hoje, acompanho meus filhos vivendo experiências parecidas, ainda que em um contexto completamente diferente.
O álbum da Copa é um dos poucos produtos capazes de reunir memória afetiva, hábito de colecionar, interação social e sentimento de comunidade em uma única experiência. Por isso, ele vai muito além de um produto. Ele representa um ritual.
O que as marcas podem aprender com isso
O grande aprendizado para o marketing é que as pessoas não estão comprando apenas produtos. Elas estão comprando experiências, histórias e sentimentos.
É justamente por isso que as campanhas ligadas ao universo das figurinhas costumam gerar tanto engajamento. Elas ativam lembranças, incentivam a participação e criam conexões emocionais difíceis de replicar apenas com argumentos racionais.
No ambiente digital, isso pode ser traduzido em diferentes estratégias. O storytelling continua sendo uma das mais poderosas. Resgatar histórias da infância, tradições familiares e momentos marcantes gera identificação imediata.
Outro ponto importante é estimular a participação da comunidade. Consumidores gostam de compartilhar coleções, relatar experiências e mostrar itens raros. Quando a marca cria espaço para isso, fortalece o senso de pertencimento.
A gamificação também se encaixa perfeitamente nesse contexto. Desafios, recompensas, rankings e mecânicas de conquista reproduzem a mesma emoção que existe na busca pela figurinha que falta para completar o álbum.
Além disso, influenciadores de nicho, grupos de troca e ações que combinam experiências físicas e digitais ajudam a ampliar o alcance sem perder a autenticidade da proposta.
A nostalgia continua relevante, mesmo na era da IA
Vivemos um momento em que inteligência artificial, automação e personalização avançam em ritmo acelerado. Ainda assim, os sentimentos continuam sendo um dos principais motores de decisão de compra.
Talvez esse seja o grande paradoxo do consumo atual. Quanto mais digital o mundo se torna, maior parece ser a necessidade das pessoas de se reconectarem com experiências humanas, afetivas e compartilhadas.
A nostalgia não representa um olhar para trás. Ela representa uma forma de dar significado ao presente. E as marcas que entendem isso conseguem transformar memórias em relacionamento, relacionamento em comunidade e comunidade em crescimento de negócio. Porque, no fim das contas, algumas emoções nunca saem de moda.
Fonte: ecommercebrasil.com.br
